Tratar da preservação de uma paisagem histórica, especialmente de estruturas arquitetônicas e urbanísticas é como tratar do próprio corpo humano. Como um médico para prescrever um tratamento, preventivo ou curativo, das doenças da mente, do corpo e da alma, prescinde de um diagnóstico. Também no planejamento urbano necessitamos de investigações, de reflexões e dessa visão holística da saúde urbana, dos descuidos e intervenções que acarretam seqüelas irremediáveis.
E é nesse sentido precisamos evidenciar os impactos físicos e sociais que contribuem para a perda de identidade de uma cidade. Em síntese, esta é uma proposta de reflexão e de urgentíssimas ações de salvaguarda.
Aqui não cabe falar de culpados, mas, não podemos ignorar nossas responsabilidades. Portanto, não se espantem com as imagens, um tanto quanto agressivas, que vou projetar, mas isso é necessário para uma apreensão mais ampla de uma paisagem cultural.
Campo Maior há muito vem sendo louvado, sobremaneira, por acadêmicos, desta e de outras casas, alguns aqui presentes, outros que já não se encontram entre nós, como H.Dobal e Odylo Costa, filho, campomaiorenses não nativos deste campo, mas, pelo sentimento ecumênico e visceral, no dizer de Manuel Bandeira, projetaram esse lugar ao mundo como uma das maiores provas de nossa identidade cultural.
Nesse sentido é que buscamos cultivar a preservação de estruturas arquitetônicas e urbanísticas tradicionais desse admirável anfiteatro da Batalha do Jenipapo. Nessa grande praça, no passado chamada da Matriz, então um fórum agreste, com o cruzeiro axial forjando um baluarte do catolicismo, em confronto com pelourinho português, há 189 anos, cerca de 2000 nacionalistas ai concentrados, receberam as últimas instruções, como nos revela João Alves, do Capitão Luiz Rodrigues Chaves, João da Costa Alecrin, Simplício José da Silva e outros lideres, para o embate em defesa da Independência. Esses protagonistas, concretamente estavam a defender essa arena urbana de articulações sociopolíticas e religiosas. E que agora estamos destruindo pela pouca visão da dimensão histórica desses fatos. Por repressão, por rejeição aos valores do passado.
Como outras, essa ágora gravada do timbre renascentista, com esse caráter ambivalente de liberdade e repressão, de profano e sagrado, foi uma necessidade vital e que ainda hoje exala uma atmosfera recorrente de lugar que conecta dramaticidade e grandiosidade, encurralada de passivas massas de alvenarias caiadas em suas bordas. Essa contingência histórica agrega uma dimensão estética e morfológica supra temporal, presa à paisagem decantada em luz de liberdade, além da fundamentação da teia curraleira que lhe deu origem.
O centro histórico de Campo Maior guarda, assim, um encanto geológico, configurando um espírito de lugar, cheio de especificidade nacional. Isso, por si só, já seria suficiente para justificar esse lugar como PATRIMÔNIO NACIONAL. É a apreensão dessa reserva ambiental, cantada em prosa e verso, e as ameaças e concretas ações de perda que justificam a urgentíssima salvaguarda oficial.
As paisagens de destruição, que se consolidam de forma assustadora, apontam a falta de informação como justificativa aos descalabros de ações oficiais. E é certo que há muito desconhecimento que, aliado à informações desvirtuadas, inclusive praticadas por agentes públicos, caracterizam um preconceito à preservação do patrimônio cultural. Porém, pelo que já se produziu em livros, revistas, projetos e relatórios técnicos a respeito, não se pode dizer de falta de conhecimento ou de ações junto às instituições públicas.
Lei nº 09 de 11/10/2006 – plano diretor
Dessa lei extraímos:
Art. 13. Investir na manutenção do patrimônio histórico do município, a ser classificado, incentivando os proprietários à preservação;
Art. 21. I – Pesquisar e catalogar o patrimônio, histórico, artístico e cultural, material e imaterial, existente em Campo Maior.
II – Criar o Complexo Cultural de Campo Maior.
Art. 25. I - Planejamento do desenvolvimento ... modo a prevenir e a corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente;
VIII - Proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico.
Efetivamente o que se constata é o desaparecimento desse acervo. Ou seja: da não aplicação desse instrumento. E é por omissões governamentais que o MinC através do IPHAN entra em cena com o tombamento, dispositivo esse voltado para o desenvolvimento social, econômico e, sobretudo, humano e que pode ser entendido como uma extensão da lei ordinária de regulamentação do solo.
No Piauí, a gravidade das perdas e seqüelas em nossas paisagens pode ser aferida pelo que não se disse na última campanha eleitoral. Acompanhei o noticiário e não vi, não ouvi e não sei de quem sabe, de qualquer candidato, à qualquer esfera governamental (municipal, estadual ou federal) sequer ter falado: patrimônio histórico. Isso é grave e isso demonstra que esse é um tema que não faz parte do vocabulário político. Consequentemente, não é um conhecimento levado aos currículos escolares, tão pouco, aos menos favorecidos, que se quer têm acesso às escolas.
Falar de preservação de bens culturais, sobretudo de estruturas edificadas, é falar de lembranças merecedoras de revivências. Isso, soa assim, quase como um insulto aos gestores das coisas públicas. Esse é um tema que incomoda o bel-fazer dos que decidem o destino dos lugares. Quem fala sobre isso? Quando se fala? Como se fala? A preservação de bens culturais não é uma coisa natural, uma faculdade ou aptidão inata e universal do homem, não carrega DNA, não é uma intuição genética, mas um exercício, um direito de cidadania, de aprimoramento dos sentidos, de apreensão de valores antropológicos. Precisa ser aprendida. Porque cultura não é um fato pronto, mas uma noção historicamente construída. Portanto, não pode ser entendida como uma manifestação excludente ou conflitante com progresso urbano, pelo contrário: é condição. Não há desenvolvimento sem preservação nem preservação sem desenvolvimento. Não se trata de excentricidade de confrarias preservacionistas. Mas, ao contrário, elas são o baldrame indispensável ao planejamento urbano e regional. Qualquer que seja a cidade cujo planejamento não leve em conta suas referências de origem, está fadada ao caos. A preservação deve ser um objetivo político. Por tudo, é um fato de natureza social, de relações entre pessoas e não entre objetos.
A história desses artefatos é a história da sua gente .
A paisagem urbana como fenômeno cultural é dinâmica. Núcleos antigos, mesmo aqueles protegidos por órgãos de patrimônio, não só são passiveis de novos empreendimentos, como devem estimular novas iniciativas. Isso prescinde de planejamento, porque preservar não é mumificar nem, tão pouco, perverter. Mas, evidenciar, valorizar referências e significados urbanísticos que consubstanciam identidade social.
Qual é a identidade desse lugar? .
Na construção de identidade fazem parte diversas instâncias (famílias, escolas, igrejas, mídia...). Aqui, nas heranças, buscamos a memória da nação:
A configurada por uma força unificadora de acomodação orgânica, em completa interação do espaço criado com o território;
Uma intenção plástica presa aos condicionantes mais decisivos das relações de produção e consumo.
Referências de uma exclusividade especial, cantada por poetas, escritores e urbanistas.
Sentimento de integração
Nesse complexo urbano, É esse equilíbrio entre os valores dos terrenos e das edificações que consolida identidade e garante a auto-sustentabilidade de um cenário. É com esse cenário de sentimento integrado que podemos evitar o paternalismo patrimonial. A perspectiva uniforme das casas perfiladas e agarradas umas às outras, justapostas às testadas dos lotes, associadas à aplicação de componentes estruturais, expressa uma interdependência construtiva e confere uma unidade urbana embasada em antigas Posturas, difundidas por todo o tempo colonial e imperial e que ainda referência essa paisagem.
O lodo que ficou nesses telhados é vida que um dia se viveu. Odylo Costa filhp .
Nesses telhados não há 2 telhas iguais. Nessas paredes não há 2 tijolos de mesmo peso, 2 janelas de mesmo vão, 2 casas de mesmo volume. Mas, as formas se espelham, os telhados se unificam, os vãos se correspondem. Que paisagens, então podemos associar a essa identidade? A de feituras imanentes do fenômeno plástico, referências ao sentimento estético, substratos de uma arquitetura de alma flamejante, filtrada numa paisagem elegíaca, sensível à estética, ou de simbologias do pseudo progresso urbano? Ou
Desconstrução de identidade .
A da desconstrução de identidade? Cada vez mais, cenários tradicionais vêm se tornando impossíveis de apreensão, frente às mutações não de desenvolvimento planejado, mas de crescimento desordenado, amparado na doutrina positivista de progresso e desenvolvimento, arbitrado na inconseqüência social, que de bom tempo estão anulando a identidade da cidade. Nesse cenário, que antropólogo, pesquisador ou turista viria aqui para apreciar um prédio de supermercado ou esse tipo de arquitetura?
Mapa das vilas 1762 (Instalação da vila 08-08-1762. Fundação: 1889) .
Para situar as interações das estruturas de interesse de preservação na paisagem urbana de Campo Maior, tomo esse mapa, que referencia a rede de cidades surgidas das vilas de D. José I. Vilas estrategicamente instituídas por uma decisão política de jurisdição territorial e de materialização do poder, à semelhança das cidades lusitanas e não de um projeto isolado.
Edifício cristão .
Quando da elevação das povoações paroquiais à condição de vila, o que iria afiançar a ocorrência da vila era o edifício cristão. Como noutras povoações paroquiais setecentistas, esse retângulo proto-urbano foi o componente gerador da malha viária, primeiro sinal de utilidade, permanência e estética estruturador da cidade racional. Nessa morfologia do complexo praça-igreja há toda uma intenção estrutural. Aqui, a atual Igreja de Santo Antonio (foto dos anos quarenta) seria a segunda geração igrejas nesse mesmo local. Sua tipologia e estado de conservação aponta para obra do século XIX, mas só com prospecções especializadas se poderia ter essa confirmação. Isso, não significa ser de menor importância que de épocas anteriores. A relevância se dar pelo caráter histórico, artístico-arquitetônico e/ou urbanístico, ou ainda de uso, em consubstanciar identidade de um lugar. Aqui também, esse fenômeno de renovar por renovar(fotos da igreja atual), sempre esteve impregnado em nossa cultura reformista.
Mapas - núcleo de origem
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Igreja, praças, intendência, cadeia, cemitério e mercado - Pontos focais doutrinados pela igreja e pela coroa não se tratam de elementos residuais, mas referências fundamentais, no modo de se ver a cidade. A praça central com a igreja expressa o simbolismo cristão, enquanto a malha ortogonal confirma a estética da ordenação geométrica, de origem pombalina. As irregularidades remetem a um alinhamento de logradouros determinados pelas casas, ou seja: anterior ao reticulado posteriormente projetado.
Paisagem cultural
Quando nos reportamos à Campo Maior, o fazemos com essa consciência de lugar configurado por determinadas tipicidades urbanas. São as especificidades de cada lugar que as tornam representativas de uma determinada Paisagem Cultural no seu entendimento mais amplo, como fundamentada na Constituição Federal de 1988:
O patrimônio cultural é formado por bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem as formas de expressão, os modos de criar, fazer e viver, as criações científicas, artísticas e tecnológicas, as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais, os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
Cidade são pessoas e casas são livros
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Cidade são pessoas e casas são livros, cujas páginas guardam muitas mensagens. Muitas histórias pessoais, sociais, políticas, lembranças, memória. Casa é esperança, é destino, é inspiração, é vida. Sem gente não existe. Esses legados são fontes de conhecimento, portanto necessários e a sua preservação deve ser feita por motivos simbólicos, como testemunhos históricos, com intenções pedagógicas, ou legitimação de identidade política. Quando os conhecimentos e vivências antigos são estimulados o mundo se expande. A felicidade das pessoas de um lugar aumenta. E, por que Campo Maior, tão decantado, tão historicamente difundido, não tem seu acervo edificado igualmente louvado?
Ver é uma maneira de sentir
Porque bens do espírito devem ser tratados com meditação. Portanto, não se trata tão somente de cuidar do físico mas também da alma. Na contramão desse propósito, tem-se expandido uma noção distorcida e mesmo má intencionada, do significado da preservação dos acervos históricos, como se bastasse manter a fachada de uma casa, liberando seu interior para todo tipo de reforma. Da lei nº 09 de 11/10/2006 se extrai: criar um programa de incentivo à manutenção de fachadas dos edifícios com mais de 80 anos. Isso soa como um engodo amparado nos artigos antes citado desta Lei. É o caso da antiga Intendência, cujo interior foi totalmente destruído. Esse é um exemplo de pastiche, uma desconstrução da memória urbana. Que não pode ser difundida como exemplo preservação. É também o caso do sacrilégio do progresso acometido na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Isso é muito grave porque no trato dos espaços urbanos, às condutas oficiais e religiosas, sucedem reações em cadeia, consolidando tendências, conflitantes o com o próprio entendimento de paisagem cultural.
Interiores O que seria o homem sem esses valores espirituais.E. Carvalho
Esse é um vestíbulo, lugar de receber e que também reflete hospitalidade e uma organização de uma época que em nada prejudica o uso atual. Imaginem essa casa sem essa setorização característica, sem essa antecâmara separando a área intima da social. Sem essa cancela, provida de postigo vazado, que deixava o interior reservado, sem maior exposição aos estranhos, e que facilmente permitia a identificação de quem chegava. Imaginem essa casa só com fachada. Quanto se perderia pela destruição dessa configuração? Há nisso, uma coesão espacial ordenando as frontarias e articulando o interior com os planos das fachadas, coberturas e sistemas construtivos, confirmando a aplicação de antigos esquemas reguladores. De frentes cerradas e formais, sem alpendre e de fundos abertos e relaxados a casa da cidade é a casa de campo. Desprendida de intenção alegórica, é a essência artística de um tempo, mesclada no engenho português e na conveniência do semi-árido. Forma que é a estrutura. A origem rural dos primeiros núcleos urbanos do Piauí, aliada a um parcelamento relaxado do solo, iria conferir um caráter rústico à casa da cidade. Esses sistemas construtivos expressam formas e modos do habitar e construir que formataram essa cidade. Numa rápida comparação com as casas antigas de Minas, se destacam peculiaridades locais de materiais e sistemas construtivos próprios. Se ao clima frio, opulência e relações senhor - escravo se baliza maior resguardo e desenho fechado daquela. Ao calor abrasivo, despojamento e relações senhor - vaqueiro se formata aberta e relaxada esta.
Uso e conservação
Uso e conservação atuais refletem o potencial da cidade, como um lugar muito especial para se viver, com o conforto e qualidade de vida que a tecnologia atual proporciona. As varandas abertas para os quintais e as fachadas fechadas para o exterior, com vãos protegidos de guilhotinas, rótulas e calhas, não foram apenas uma preocupação de acomodação às condições climáticas do sertão abrasivo. Mas, ajustamento de posturas urbanísticas e dos recursos técnicos então disponíveis. Os desaprumos acentuam a estética artesanal enquanto arrojadas estruturas de carnaúba amarradas com relho cru fazem a diferença. A religiosidade, presente na imaginária e nesses singelos abrigos de devoção, e o zelo com os bens móveis existentes são também expressões presentes no uso dessas moradias.
Significados antropológicos
Nesse contexto, essencial é saber ver. E ver é identificar os elementos que constituem a essência de uma época. É preciso ver com prudência e lucidez a sutileza de valores que, desapreciados no presente, possam vir a ser valiosos por novas gerações. Alude a apreensão de elementos diversos, como essa típica exaustão de cozinha. Herança de antigas tradições portuguesas do Algarves, que para muitos não passa de um buraco na parede. Esse beiral de dupla bica... A beira-seveira... É preciso ver com alma despida, por que a paisagem urbana compreende um acervo muito além dos monumentos comumente evidenciados em cartões postais.
Paisagem camuflada
Ver, passa por essa perspectiva ousada e profundamente perturbadora do tecido urbano, em toda sua diversidade cultural. Por trás dessas fachadas, recobertas de escórias, encontram-se os fundamentos sociais, econômicos e culturais que alicerçaram essa cidade.
Curral do amor
Na cidade mutilada, ver passa pela apreensão do que se perdeu. Caso dessa quadra cuja preservação se justificava, não pelo prostíbulo que abrigava, mas pela harmonia do conjunto, transmudado em sorrateiro curral do amor: a Zona das Virtudes e a Zona Planetária. A preservação de edificações em zonas boêmias têm sido feita noutros lugares, como no Rio de Janeiro, onde a Lapa, hoje é uma referência internacional, onde ocorrem muitas de manifestações culturais. Aqui perdemos esse incrível potencial turístico e econômico como se vê nessa imagem de 1973. E agora, o que fazer com esse lugar? Liberá-lo para qualquer galpão?
Ainda é tempo de ver
Não temos o direito de penitenciar as novas gerações com a destruição do presente. Nem podemos ser omissos a isso. É necessário preservar o acervo que persiste em sobreviver. Fragmentos de um patrimônio em decomposição que, ainda nessa condição, contribuem para educar o olhar do que restou da identidade de um lugar. Coberturas de carnaúba, varandas de refeições, corredores e cozinhas abertos imprimem a informalidade do meio rural. Inclusive como extensão dos criatórios de animais.
Tipologia.
Ver passa pela apreensão de características tipológicas. A moradia urbana piauiense, notadamente da segunda metade do século XVIII e por todo o XIX, é tão portuguesa quanto a própria língua dos colonizadores. Nela persistem certos fundamentos da casa lusitana, como os paramentos de pedra, os beirais em boca de telha ou planos de telhados com tacaniças, cachorros. Nesse conjunto encontramos as tipologias mais difundias em todo o Brasil Colônia, e que se fazem indispensáveis para a caracterização do centro histórico..
Ai, encontramos praticamente todos os esquemas da casa brasileira de origem lusitana, desde a porta e janela, aos sobrados, passando meia-morada, morada inteira, morada e meia, morada e comércio. Já esse acervo, valorizado pela comunidade, certamente seria muito procurado por urbanistas, arquitetos, artistas intelectuais de muitos lugares do mundo. Nessas seqüências de moradias e comércio ainda se vê a integração e de antigas tradições com vínculos de vizinhança. No que passam de sensação de desprendimento, pelos materiais e pelo ajustamento ao parcelamento irregular, expressam de integração na consonância volumétrica dos panos de telhado e na harmonia de fachadas alinhadas.
Aqui, ainda se vê uma afinidade espiritual, uma solidariedade formal, uma interdependência física, uma deferência urbanística. Isso é fundamental para a preservação. Mas, o acervo compreende também contribuições de outros períodos, como o grupo escolar Valdivino Tito, a usina elétrica, o art décor do antigo prédio do B Brasil. O comércio da cera expandiu construções de função comercial e residencial E proporcionou a implantação do ecletismo no começo do século XX. Ainda são casas de boiadeiros e já de comerciantes da cera, moldadas com produtos da sociedade industrial.
Sítios da periferia
Nesse complexo urbano, se incluem ainda os sítios periféricos, o Rocio, o São Luís e o Tombador já destruído. Casas decorrentes de aforamentos entre as fazendas e o acontecimento urbano, precursoras das chácaras urbanas.
Fundamentos socioeconômicos
Os lugares urbanos pertencem a distintos grupos sociais. Eles são expressão de seu espírito ou da sua falta de espírito. O Bar Santo Antônio é um bom exemplo de preservação das tradições de um lugar. Tal preservação pode ainda ser entendida como uma bela homenagem às pessoas que formataram essa cidade. Muito diferente das placas de ruas substituindo a toponímia tradicional dos logradouros, indissociável da identidade de um lugar. Para uns têm significados pessoais, simbolizam vínculos históricos e indicam identidade social. Para outros, não passam de suportes descartáveis. Como se vê nessas imagens do Bar Eldorado, a sobrevivência das edificações não é determinada pelo seu DESIGN, mas pelo uso.
Praça Rui Barbosa
Nessa praça Rui Barbosa, o Bar, Sorveteria e Churrascaria Eldorado, na esquina oposta do Bar Santo Antônio, visto antes, comprovam que a preservação é uma questão indissociável ao planejamento urbano. Conseqüentemente, uma questão política.
Já perceberam o quanto PII tem-se projetada, não só no Piauí, mas no Brasil, como importante cidade histórica? E como aquelas casas vêm se tornando auto-sustentáveis? No que pese as diferenças construtivas daquela cidade com Campo Maior, não é arquitetura em si, suas casas e igreja, mas relações sociais agregadas ao significado do centro histórico que conferem um acepção especial a P II. Aqui, a festa de Santo Antônio, o festival gastronômico e as comemorações da Batalha do Jenipapo ignoram esse acervo. É com planejamento eficiente que podemos ter uma economia criativa atrelada à esse potencial urbanístico.
Rota comercial – Acampamento
Situada na rota comercial entre o Maranhão e o Ceará, tem absorvido as mazelas do movimento rodoviário, especialmente do tráfego pesado. A essa atividade se associam esses acampamentos de mercadores projetando um violento impacto na paisagem do centro histórico e grande danos às casas antigas. Por outro lado, onde estão os órgãos de turismo que não exploram esse potencial em beneficio da valorização do centro histórico?
Poder das formas e as Formas do poder
Nesse complexo sociourbanístico, vamos encontrar o poder das formas caracterizando identidade. São formas que despertam emoção, como se vê na poesia de Elmar Carvalho, que embora dirigidas originalmente à Oeiras, igualmente se aplica a Campo Maior. Imaginem se tivéssemos conseguido preservar esse cenário. Seguramente, teríamos guardado muito mais ensinamentos e motivos para nos orgulharmos desse lugar. Como em todo lugar, o uso de um prédio pertence ao proprietário; sua interação na paisagem pertence à comunidade; e sua beleza pertence ao mundo.
Ao poder das formas contrapõem-se as formas do poder. A praça de Santo Antônio, reunia duas das mais importantes referências da administração municipal: a casa da Intendência do século XIX e casa da Prefeitura do século XX. Uma notável singularidade urbanística. Essa casa foi sumariamente destruída para a instalação desse inusitado playground. Essa é um tipo de catarse, de expurgo, de varredura da memória desejada para a cidade. Esse é o espírito de semi deuses que definem os destinos de um lugar. Nesse cenário, não há como fugir do entendimento de que a cidade vem se tornado um mero receptáculo de atividades.
Entorno ofuscado
A arquitetura não é apenas um prédio com determinada função de uso, mas também o que agrega e ressoa em seu redor. Os desequilíbrios entre os valores comerciais dos terrenos e das edificações anteriores, é assim, fatal para a perda de estruturas arquitetônicas.
Igreja do Rosário.
Nessa geopolítica excludente, estigmatizada como das mais miseráveis do país, o patrimônio edificado nunca teve o merecido desvelo. Essa paisagem passível de resgate? Isso é técnica e financeiramente possível. Essa é a igreja em 1972. Com essa coisa ao lado. E aqui por volta de 2000, já profundamente descaracterizada. Aqui, por volta dos anos 30, configurando essa praça em campo natural, livre de calcamentos e adendos comprometedores. É frente à essas desconstruções que afetam o espírito e à destruição de identidade, que proponho uma reflexão dessa paisagem: o que queremos, o que podemos e o que devemos fazer para a valorização desse lugar.
Antiga Cadeia Pública
A responsabilidade dos educadores é muito grande e maior ainda a dos gestores públicos, porque mais importante que saber desenhar o alfabeto é saber ler uma paisagem.
Museu do Mouro
Deveria ser um lugar de reflexão, de estudos, de debates e de interações. Tornou-se um lugar de despejos de objetos velhos ou efêmeros. Essas telhas, são relíquias que em qualquer museu do mundo estariam protegidas por uma redoma com 2 vigilantes de cada lado. Aqui são escórias que atrapalham as políticas sociais.
Engenhos publicitários
Na história do urbanismo, a maneira como as pessoas interagem com o meio ambiente só pode ser medida pela projeção de suas culturas. Essa reprodução do Abaporu de Tarsila ilustra bem a distância entre a assimilação do centenário movimento antropofágico e o entendimento de uma paisagem tradicional. É como se extrai do Enigma de Elmar: ... esfinge autoantropofágica que não se decifrou e que a si mesma se devorou.
Soleira
como diz H. Dobal: O tempo gasta estas pedras... e em nós porfiamos estas lembranças. São dizeres que nos fazem sentir a dimensão de uma paisagem.
IPHAN – mapas do processo de tombamento.
É na fundamentação histórica dessa rede de cidades vindas do Oitocentos que o IPHAN busca proteger e valorizar esse centro histórico e assim, evitar perdas irreparáveis e resultados mais eficazes no trato das nossas referências de raiz. A esses componentes urbanos aliam-se exuberantes paisagens de carnaubais que nos ajudam a uma percepção mais ampla dos potenciais dessa região, para exploração de uma economia criativa atrelada ao turismo cultural. Não podemos postergar a urgência do essencial. Temos a obrigação de reverter esse quadro de destruição, sob pena de passarmos à história como malfeitores desse lugar.
Olavo Pereira da Silva fº
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